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contração involuntária

Ela chora de carne musculosa, contraída, pulsante, e respira como quem tenta parar de existir e não consegue. Então usa as mãos - dedos longos, unhas vermelhas - pra gesticular e dizer que, assim, de repente, recém acordada de uma distração qualquer, se viu com um estranho no corpo. Eu encontrei um amor em mim. Bem aqui, diz, aqui no estômago. Aqui no útero. No pulmão. Não sei dizer com precisão, ele escorrega e se esconde com frequência. Depois me olha assombrada e eu vejo naquele rosto branco uma contração que oscila entre criatura recém-nascida e prestes a morrer. É tudo a mesma coisa, ela diria, esses extremos levam sempre ao mesmo abismo. E eu respiraria fundo pra não me deixar desaguar naqueles olhos que não sei se são verdes ou castanhos, que nunca olhei de perto. Pra não me perder naquele corpo esguio que desfilou em minha frente como em um show particular do qual eu sempre me lembro quando fecho os olhos. Espasmos involuntários das mãos que se fecham em volta da sua cintura na qual eu imagino aqui em cima de mim, o toque a pele, o gosto. Seios nos quais minhas mãos se encaixam como se fossem feitos para tais. De uma forma ou de outra, estamos condenadas, eu sei. Somos duas pessoas sem solução. Feito carne de músculo, pura contração involuntária.

'cos you are in my head
swimming forever in my head
tangled in my dreams
swimming forever'
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puta

Risca em mim esse rosto que você quer e eu mudo. Eu: muda. Passiva, lasciva, meretriz dedicada que sou e você não enxerga. Me enxergue. Diversas faces, de versos e restos, me convoque e eu me entrego. Mas eu quero esse teu grunhido interno ecoando pelos meus ouvidos, escorrendo pelas pernas, lambendo poros feito cão no cio. Ossos e órgãos, te engolir inteiro pra sair de mim e ser você ou ser eu com você em mim. Laço de pelos, laço de peles. Gueixa, me banho em delicadeza e aguardo submissa. Pra você trazer de mim a puta que a saliva me empurra abaixo todo dia.
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Cortina

A quem culpar, afinal?

O fim vem sem precedentes. Com a pendência a espetar ou a conclusão fria a se alongar em reticências, até o ponto final. Mas quando foi, querida? Quando veio, quando caiu essa cortina que não esperávamos entre nós? Foi exatamente no momento em que decidimos nos ensurdecer. Dentre os olhares frios, as companhias, as palavras se tornavam menos úmidas – se tornavam escassas, previsíveis, esperadas, e mais, cansativas. Porque, assuma, arde a garganta e esfria o sangue o não ouvir e olhar, e com mãos separadas, apenas no aguardo. É, isso, parece distância. Quando se fala de distância, parece. Mas não é distância sólida, vê? E quando não é sólido, é difícil alcançar. Apenas pende no ar e é quase intocável – não tem provas. Só se sente. Talvez seja um pecado deixar tudo inflar de tanto excesso no inicio: Muitos sentimentos, muitas palavras bonitas – tudo isso estoura e deixa o vazio irrecuperável. Porém acho que também já foi guardado para depois por demais. Porque, certamente, não é eterno: vai se esgotando. E, me fale, do que valem os sentimentos traduzidos em palavras e as palavras revertidas em sentimentos se ninguém sabe? Eu mesmo até hoje não sei. Você com sua duzia de sentimentos que a cada dia acredita que um entre dez pode ser amor. Eu reclamo que escorre de um lado só, esse excesso, e que o outro lado é como um espelho escuro que só reflete, mas não fala. Eu te falo o porquê: A voz falta. Quando eu grito, tua garganta silencia. É isso, eu falo alto, para fora, e com isso, cada vez mais tu vais acuando. A verdade é que me acostumei a tua escassez. E quando reclama que me fecho, é porque já não tenho mais o jeito de me abrir. O vazio, a frieza, a distância – tudo isso é conseqüência. Eu não diria conseqüências irreversíveis – mas difíceis. E quando me fecho, tu me clamas. Clamas de ausências, de despedidas, de saudade. Diz que sempre é assim, e como o vento, eu sou levada ao relento por palavras que me envolvem e definem como uma estranha casual, que passou, e como outras, apenas foi levada. Folha seca. Mas, ainda assim, frente a frente você se culpa – essa cortina, uma hora ou outra, cai entre nós, e faz com que você e suas tragédias se prendam de um lado, e a platéia que sou eu, por fim, tenha que assistir ao espetáculo. De qualquer maneira, também me culpo – e me culpo pela ausência. A ausência da voz a te adornar, dos braços. Me culpo porque deixo a distância crescer. E porque não ouço os gritos que deveria ouvir. E porque, receosa como sou, a encaro apenas quando sou obrigada a encarar – a distância, digo. Eu agora guardo a nostalgia dentro da caixinha, caixinha de música, de melodia, dentro da minha mão. Fechada, cerrada, como teus olhos. Abafada em notas rasas, tão fina, tão crua, tão sua. Guardo a nostalgia em qualquer melodia desconhecida que se ouve mas não se sabe d'onde vem. Tenho medo de soltá-la porque como pássaro indefeso que é preso, logo que sai já quer voar, porque ela também tem asas e quer se libertar. Mas eu não quero deixá-la ir porque logo que cria asas e começa a voar também deixa de existir.. Como tu, como eu, como nós. E, dentre culpas e julgamentos, dentre o silêncio, a distância e a ausência, dentre o que éramos, eclodiu, e já não somos – tentamos ser, eu diria – ainda me pergunto: Se é que isso existe - "nós", a quem culpar, afinal? Sempre buscamos nos outros o que falta em nós, tu falas de coragem mas nunca se arriscou. Eu falo de arriscar porém nunca tive a esperança cega de me mover sem segurança. A quem culpar afinal?
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rio-mar

Caudaloso rio
esse teu branco corpo
de águas doces-claras.
Dentro de si
arrasta mar
aberto-vivo
por entre
as pedras lisas.
Turbulento e revolto,
é úmido
teu bem-querer -
poesia-nua
de albatroz
em caça.
E eu,
sardinha,
brilhante e estapafúrdia
sardinha,
pronta
pra ser devorada
por ti.




Se algum dia nos fosse dado mergulhar nesse oceano de minúcias e nus, no fundo, nos víssemos de perto e se suas mãos ásperas apertassem minhas coxas e abrissem minhas pernas e se sua boca sugasse de mim o que tenho de fluido e se você derramasse em mim sua seiva e me engendrasse seus mistérios e me amordaçasse com algas para que eu não gritasse e se seus dentes roçassem os meus mamilos e os marcassem e meus lábios lhe mostrassem outros caminhos e revelassem na minha língua seus segredos. Se algum dia nos fosse dado, seria preciso gemer baixinho para não acordar os peixes.
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em vão.

Você que tem medo dos desejos que sonha alto: teu mundo lateja em mim.
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Nocturnamente

Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo.

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio.

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces.

Diz o meu nome, pronuncia-o.
Como se as sílabas te queimassem os lábios.
Sopra-o com a suavidade de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça.

Porque sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno.

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferida
exausta dos combates
em que a ti não consegui vencer.

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem.
E é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos.

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça

Porque sou o eu dentro de ti
que te conforta
Sou o eu dentro de ti
a única veia que me dói,
Sou o eu dentro de ti
preso nessa gaiola
Que não vê o mundo de ponta a ponta
Esperando,
como se essa vida
fosse apenas de faz de contas.
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amor velho

Velho? Não, não..
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Meu amor se tornou antigo
porque a vida,
tantas vezes se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.
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15.

...vá e carrega consigo a culpa do meu vício: ladrão desses gozos de tardes vadias agora vazias e eu nas lembranças dos sevícios teus. Assim e neste gosto de maçã verde, fincam meus olhos agarrados num filme tosco sem lágrimas pra derramar. Aquela brisa austral que você trouxe para meus dias tronchos perde cor e mata de sede esta língua que murcha sentida da flor que não vingou. Se o tempo é, as vez chamo Deus, esse sádico devasso a possuir dias meus: hora sua devoção, hora mordida de cascavel. Esta tarde agora madorna gruda na pele um sol do meio dia deste verão sem noção de ser. O tempo é ladrão de nós.
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14.

Ficar bem nem sempre deixa outras opções. É estranho quando as coisas simplesmente têm de terminar. É o estágio onde todos os sentimentos já evoluíram para um nada. É o nada que você optou para parar de sentir dor. No início você briga, chora, faz drama mexicano. Então percebe que é cansativo demais manter esse jeito de levar as coisas. Acostuma-se. Não que pare de doer, mas que cai no seu entendimento que às vezes perdemos algo e não há solução. No fim você coloca um sorriso no rosto e finge que é sincero, até que a vida o faça realmente ser. Talvez os amores eternos sejam amenos e os intensos, passageiros. É isso.
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13.

Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos,
enquanto eu amei os teus.
Minha candidez foi por ti pisada.
Não me amaste, disto só eu sei.
Estive só. Só de ti.
Escrevo para ninguém e está-se fazendo um improviso que não existe.
Descolei-me de ti.

Não me amaste, disso só eu sei.
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12.

Dentro de mim morreram muitos tigres.
os que sobreviveram estão livres.
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11.

Derramei três lágrimas:
a primeira escorreu pela face e perdeu-se na boca;
a segunda morreu achatada contra o assoalho;
a terceira caiu na tua mão.
E foi a que mais doeu.
Você limpou ela na sua camiseta surrada
E olhos nos meus olhos

E eu não vi vestigios de lágrimas no teu olhar.
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ela.

Não sei porque escrevo, derramo palavras a torto e direito. Ela não merece meu amor isso é fato mais que comprovado. Não, não é bem assim. Quem sou eu pra julgar que meu amor é assim tão indigno de tal ser. A verdade é que ela não sabe amar, é isso mesmo. Ela não sabe amar. Ela é perdida. Ela é perdida naquele amontoado doido dela. Naqueles cigarros que são fumados um no rabo do outro, é isso mesmo. Ela se perde em seus quereres. Ela quer amor, mas aquilo não é amor, não é mesmo. Ela não sabe amar. Ela foge da sua própria solidão usando os corpos alheios e acha isso bonito! Onde ja se viu diário, não somos descartáveis. Talvez ela se ache assim e por isso ache que todos devem ser tratados como tal. Eu lá tenho culpa dela se achar descartável? Se ela se menospreza, abusa de si e pensa que isso faz dela forte, mas não, diário. Eu sei que ela se sente só. Sei que ela vê a felicidade alheia transbordando e no fundo sente dor. Sim, ela sente. Nesses períodos ela se agarra a qualquer corda ou fio e desaba com sua solidão pra um universo alheio achando que isso vai lhe absolver de qualquer culpa. Dai ela pisa no coração alheio, diário, isso é tão dolorido de se ver. Não se preocupada com as consequências, não respeita a dor do próximo. É infeliz, mas penso que não deve sentir remorso.

E eu penso: Como deve doer abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma.
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10.

Resolvi guardar meu amor para mim,
não por questão de egoismo, mas de cuidado.
Não quero que ninguém o toque, só isso.
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nós.

Não lembro quando foi que te perdi
Nem o dia, nem a hora
Nem onde, nem o porque..
Sei que perdi.
Desde então,
Me sinto cada vez mais triste.
Vazia.
E só.

[Os nós foram desatados
Um para cada lado.]
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09.

Eu, que ando afetivamente em calamidade, transformando qualquer encontro casual em 'Império dos Sentidos'; Eu que ando com sede de amor, acima de tudo, ou talvez com a mesma desesperada intensidade, procuro alguém com quem compartilhar meu mundo. Eu, que fico patética às 4, 5 horas da manhã quando vejo que a noite se foi e eu permaneci só.
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08.

Até mesmo os santos tem um lado mais sombrio, e os demônios que encontramos podem revelar elementos de honestidade e charme. Ninguém, ninguém mesmo é inteiramente consistente, e a maioria de nós é uma confusão intensa de pensamentos, valores e comportamentos que, com muita frequência entram em conflito. Conflitos internos, batalhas com um vencedor ou um perdedor, mas que, inegavelmente, tornam mais forte, seja qual for o resultado.
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07.

Quero escrever um poema outro. Que não seja sobre coisas tristes nem de melancolia desmedida. Nem de domingos ocos. Quem sabe um pouco, mas não muito pouco de bucolismo. Ativismo. Concretismo. Lirismo
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06.

Hoje eu tive uma das experiências mais fortes da minha vida.
Não havia nada além de um espelho e palavras que eu dizia pros outros,
mas tive que me dizer olhando nos olhos mais tristes que já tive.
Minha voz tava embargada, mas meu coração tinha certeza do que dizia.
Minha fisionomia mudou, e eu consegui gargalhar novamente,
por ser exatamente como quem estou me tornando.

Eu estava me fazendo muita falta.
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05.

Foram tantas brincadeiras,
tantas conversas,
tantas risadas...
E olhe agora..
Nem conversamos mais.
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04.

Talvez eu esteja tentando construir uma ponte mais sólida entre mim e as pessoas
porque preciso me comunicar para sair do isolamento onde me enfiei para me proteger,
Ora... da solidão!
Escrevo contra a solidão.
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reavaliações.

Amor permanente...
Como a gente se agarra nesta ilusão.
Pois se nem o amor pela gente mesmo
resiste tanto tempo sem umas reavaliações.


[Martha Medeiros]
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03.

Quem quiser se aproximar, que se aproxime,
mas não venha desrespeitar o amor que me faz amar.
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02.

A metáfora poderá parecer por demais exagerada, mas que seja.
É essa correta descrição de um amor carregado pela comodidade.
E, para ratificar a feiúra deste costume tão humano,
pode-se comparar o fim do amor como uma feira,
que começa cheia de flores e frutas perfumadas e termina com lama e restos.
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01.

Às vezes enxergo tão profundamente a vida que, de repente,
olho ao redor e vejo que ninguém me acompanhou
e que meu único companheiro é o tempo.


[Quando Nietzsche Chorou]
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humildade

Eu te recebo de pés descalços: esta é minha humildade e esta nudez de pés é a minha ousadia
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Assim.

Assim: fingindo que está,
sonhando que vai,
inventando que volta.


(Mia Couto, in "Estórias Abesonhadas")
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sobre-viver

Mas sobreviver não é bom. Creia-me. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra, estiola-se num não saber que fazer do tempo, que não flui, e da aridez da existência, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo.
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Quando?

"Quando os livros e as palavras haviam começado a significar não apenas alguma coisa, mas tudo?”.

Markus Zusak in A Menina que Roubava Livros .
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Inventário II

A noite ultrapassou a si mesma, encontrou a madrugada, se desfez em manhã, em dia claro, em tarde verde, em anoitecer e em noite outra vez. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Que aceitei a queda, que aceitei a morte. Que nessa aceitação, caí. Que nessa queda, morri. Tenho me carregado tão perdido e pesado pelos dias afora. E ninguém vê que estou morto”.
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Inventário I

Não queria, desde o começo eu não quis. Desde que senti que ia cair e me quebrar inteiro na queda para depois restar incompleto, destruído talvez, as mãos desertas, o corpo lasso. Fugi. Eu não buscaria porque conhecia a queda, porque já caíra muitas vezes, e em cada vez restara mais morto, mais indefinido – e seria preciso reestruturar verdades, seria preciso ir construindo tudo aos poucos, eu temia que meus instrumentos se revelassem precários, e que nada eu pudesse fazer além de ceder. Mas no meio da fuga, você aconteceu. Foi você, não eu, quem buscou.