Cortina

A quem culpar, afinal?

O fim vem sem precedentes. Com a pendência a espetar ou a conclusão fria a se alongar em reticências, até o ponto final. Mas quando foi, querida? Quando veio, quando caiu essa cortina que não esperávamos entre nós? Foi exatamente no momento em que decidimos nos ensurdecer. Dentre os olhares frios, as companhias, as palavras se tornavam menos úmidas – se tornavam escassas, previsíveis, esperadas, e mais, cansativas. Porque, assuma, arde a garganta e esfria o sangue o não ouvir e olhar, e com mãos separadas, apenas no aguardo. É, isso, parece distância. Quando se fala de distância, parece. Mas não é distância sólida, vê? E quando não é sólido, é difícil alcançar. Apenas pende no ar e é quase intocável – não tem provas. Só se sente. Talvez seja um pecado deixar tudo inflar de tanto excesso no inicio: Muitos sentimentos, muitas palavras bonitas – tudo isso estoura e deixa o vazio irrecuperável. Porém acho que também já foi guardado para depois por demais. Porque, certamente, não é eterno: vai se esgotando. E, me fale, do que valem os sentimentos traduzidos em palavras e as palavras revertidas em sentimentos se ninguém sabe? Eu mesmo até hoje não sei. Você com sua duzia de sentimentos que a cada dia acredita que um entre dez pode ser amor. Eu reclamo que escorre de um lado só, esse excesso, e que o outro lado é como um espelho escuro que só reflete, mas não fala. Eu te falo o porquê: A voz falta. Quando eu grito, tua garganta silencia. É isso, eu falo alto, para fora, e com isso, cada vez mais tu vais acuando. A verdade é que me acostumei a tua escassez. E quando reclama que me fecho, é porque já não tenho mais o jeito de me abrir. O vazio, a frieza, a distância – tudo isso é conseqüência. Eu não diria conseqüências irreversíveis – mas difíceis. E quando me fecho, tu me clamas. Clamas de ausências, de despedidas, de saudade. Diz que sempre é assim, e como o vento, eu sou levada ao relento por palavras que me envolvem e definem como uma estranha casual, que passou, e como outras, apenas foi levada. Folha seca. Mas, ainda assim, frente a frente você se culpa – essa cortina, uma hora ou outra, cai entre nós, e faz com que você e suas tragédias se prendam de um lado, e a platéia que sou eu, por fim, tenha que assistir ao espetáculo. De qualquer maneira, também me culpo – e me culpo pela ausência. A ausência da voz a te adornar, dos braços. Me culpo porque deixo a distância crescer. E porque não ouço os gritos que deveria ouvir. E porque, receosa como sou, a encaro apenas quando sou obrigada a encarar – a distância, digo. Eu agora guardo a nostalgia dentro da caixinha, caixinha de música, de melodia, dentro da minha mão. Fechada, cerrada, como teus olhos. Abafada em notas rasas, tão fina, tão crua, tão sua. Guardo a nostalgia em qualquer melodia desconhecida que se ouve mas não se sabe d'onde vem. Tenho medo de soltá-la porque como pássaro indefeso que é preso, logo que sai já quer voar, porque ela também tem asas e quer se libertar. Mas eu não quero deixá-la ir porque logo que cria asas e começa a voar também deixa de existir.. Como tu, como eu, como nós. E, dentre culpas e julgamentos, dentre o silêncio, a distância e a ausência, dentre o que éramos, eclodiu, e já não somos – tentamos ser, eu diria – ainda me pergunto: Se é que isso existe - "nós", a quem culpar, afinal? Sempre buscamos nos outros o que falta em nós, tu falas de coragem mas nunca se arriscou. Eu falo de arriscar porém nunca tive a esperança cega de me mover sem segurança. A quem culpar afinal?

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