contração involuntária

Ela chora de carne musculosa, contraída, pulsante, e respira como quem tenta parar de existir e não consegue. Então usa as mãos - dedos longos, unhas vermelhas - pra gesticular e dizer que, assim, de repente, recém acordada de uma distração qualquer, se viu com um estranho no corpo. Eu encontrei um amor em mim. Bem aqui, diz, aqui no estômago. Aqui no útero. No pulmão. Não sei dizer com precisão, ele escorrega e se esconde com frequência. Depois me olha assombrada e eu vejo naquele rosto branco uma contração que oscila entre criatura recém-nascida e prestes a morrer. É tudo a mesma coisa, ela diria, esses extremos levam sempre ao mesmo abismo. E eu respiraria fundo pra não me deixar desaguar naqueles olhos que não sei se são verdes ou castanhos, que nunca olhei de perto. Pra não me perder naquele corpo esguio que desfilou em minha frente como em um show particular do qual eu sempre me lembro quando fecho os olhos. Espasmos involuntários das mãos que se fecham em volta da sua cintura na qual eu imagino aqui em cima de mim, o toque a pele, o gosto. Seios nos quais minhas mãos se encaixam como se fossem feitos para tais. De uma forma ou de outra, estamos condenadas, eu sei. Somos duas pessoas sem solução. Feito carne de músculo, pura contração involuntária.

'cos you are in my head
swimming forever in my head
tangled in my dreams
swimming forever'

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